Abadas-Femininos-Customizados

No início dos anos 90, o Bloco Eva trouxe uma novidade que veio mudar completamente a cara do carnaval de Salvador.

Até então, os blocos de carnaval utilizavam a chamada mortalha, que era como uma enorme túnica, que deixava os foliões à vontade para aproveitarem a festa livremente. A mortalha já tinha sido uma invenção para diferenciar os foliões que queriam curtir a festa mais à vontade, das pessoas com fantasias muitas vezes incômodas e desajeitadas.

No ano seguinte que o Bloco Eva inovou, os outros blocos seguiram a ideia e nada mais foi do mesmo jeito. O Abadá era basicamente uma camiseta, feita de um tecido em geral de má qualidade e enorme, pois era o mesmo tamanho para todos os foliões. Esteticamente não era bonito para as meninas, além de ter o problema da limpeza, pois era a mesma camiseta para todos os dias de carnaval, no escaldante verão de salvador. Depois, com o Bloco do Cheiro de Amor, veio ainda a ideia de se fazer um abadá para cada dia de bloco, o que foi uma evolução e tanto. Foi também se melhorando a qualidade da malha.

As meninas começaram a inventar moda, cortando a camiseta para moldar melhor o corpo e ficar de uma forma mais atraente. Mas ainda era uma coisa bem rústica, improvisada, com tesouras arranjadas de última hora para fazer a modificação. Como as pessoas de Salvador estavam mais por dentro do que ia ser moda no próximo carnaval, as meninas soteropolitanas já iam pensando nos modelos que iriam inventar para ficarem mais bonitas. Podia-se distinguir claramente as soteropolitanas, já antenadas com o que se devia fazer, das turistas, com seus enormes camisões desajeitados. Tentava-se dar nós, cortar à força, tudo para ficar mais atraente em um ambiente em que a paquera ficou cada vez mais solta.

De lá pra cá, o carnaval de Salvador vem se profissionalizando cada vez mais, atraindo mais turistas e gente interessada em curtição e muita paquera. Estar bonita é fundamental nesse ambiente e camisões não combinam com esse cenário. Assim, começou o movimento de se alterar a camiseta de forma mais cuidadosa, profissional, entrando em cena as costureiras, com a tarefa de transformar o camisão quadrado em um modelo feminino que mais agradava à cliente.

As meninas, dias antes  do carnaval, buscam seus abadás e imediatamente começam o processo de transformação.

Hoje não basta um simples modelo mais curto ou uma camisetinha. O que se vê é um festival de criatividade na elaboração da camiseta, cada uma mais elaborada que a outra. Corta-se, põe-se paetês e lantejoulas, costuram-se rendas ou franjas, com decotes ousados,  na frente ou costas, enfim, tudo que deixe a mulher ainda mais exuberante e dentro do clima da festa, que é de exaltar alegria.


Esse movimento vê-se não só no carnaval de Salvador, mas também em todas as festas que proliferaram com a explosão do sucesso do ritmo axé pelo Brasil afora e os outros ritmos que foram surgindo fazendo sucesso entre os animados. No Rio de Janeiro, na Sapucaí, os camarotes disputadíssimos dos patrocinadores também adotaram o modelo da camiseta e lá também se vê um verdadeiro desfile de abadás, um desfile à parte.